Transmissões

Meu pai, falecido há quatro anos exatos, era um grande telespectador de jogos de futebol. Colorado fanático, adorava frequentar o Beira-Rio. Mas; os dias e horários de trabalho, as condições financeiras para comprar ingressos para todos os jogos, e a violência; afastaram o torcedor do estádio. Depois que voltou de um jogo “apenas” de calção( roubaram seu rádio e carteira, além de perder a camisa e o par de chinelos na multidão após a ação da polícia) papai preferiu a televisão.

No início, maravilha! Horas de transmissões esportivas, com opção de escolher seu narrador e comentaristas favoritos. Jogos em várias emissoras. Os programas de debates futebolísticos, com especialistas que não tinham vergonha de dizer quais times e jogadores jogavam mal, nem medo de falar das administrações dos clubes.O interesse do jornalismo esportivo na época era em dar informações, e não se esforçar em ser simpático como é atualmente. Não se deixava de assistir o jogo do seu time  porque o jogo era em casa.  E sem letreiros ou logomarcas tapando as imagens.

Com a TV fechada, e o monopólio da Rede Globo dos direitos de trnsmissão dos jogos, assistir os jogos da sua equipe, só pagando! Ou torcer  para aparecer raramente na TV aberta após a novela. A venda de TV à Cabo aumentava, e meu pai teve a grande ideia: transmitiu os jogos da antena de casa para os frequentadores do bar da família na área de casa. Novidade para o bairro na época. Toda a vizinhança se encontrava para assistir as partidas. E no início, a  família lucrou bastante com esse negócio.

Outros bares começaram a copiar: também colocaram televisores com os jogos. O bar diminuiu de movimento, e o número de copos de vidro quebrados era grande. Com o prejuízo, acabaram as transmissões via barzinho de papai. O plano dos jogos do Campeonato Brasileiro continuou na TV da família. No ano seguinte, resistimos em pagar para olhar o campeonato devido ao preço, mas a vontade de assistir foi maior e não deixamos de usar o “Pay-Per-View”. Trasmissões para familiares. Como a família era grande, tios, primos, crianças e amigos da família disputavam lugar em casa.

Os anos passaram, meus pais e eu nos mudamos e o hábito de olhar partidas  de futebol na casa de meus avós(onde ficava o bar) continua até hoje. Mas muita coisa mudou: vizinhos  ex-frequentadores do bar faleceram, meu tio e meu pai faleceram, as crianças cresceram. A casa deles foi reformada, filhos e netos empregados. A vizinhança ganhou mais crianças, o bairro ficou nobre após a inauguração de um hipermercado nele. A internet inovou a vida da sociedade, e permitiu uma variedade ainda maior de modos de transmissão de imagens.

Com a inauguração da Fox Sports Brasil, mudamos outra vez. Como toda mudança, dificuldades para se adaptar. Assim como meu pai encontrou alternativas, também podemos achar diferentes saídas ao longo do tempo. Hoje, assisti a partida  Internacional 2 x 0 Juan Aurich na TV à Cabo da minha casa. Transmissão bacana da Fox com o narrador Marco de Vargas e os comentários do Carlos Simon. Com as andanças de meus familiares; e o embate Globosat versus Fox, que deixou a maioria das empresas de televisão à cabo sem passar os jogos da Copa Libertadores; assisti olhei sozinha jogo. Sozinha mesmo!

E sozinha, lembrei de todas as diferentes formas e ocasiões que vi um jogo de futebol. E sonhando com as futuras transmissões: com televisão digital, Copa do Mundo, novas empresas e instituições, novas leis…

Oscar: sou daqui! Gol do Inter
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A culpa é do meu pai! (retrospectiva 2011)

Ele quebrou a Grécia, os EUA, e todo o resto do mundo! Como se não bastasse, mandou que ninguém emprestasse dinheiro para os países de moeda Euro, pois segundo ele, não merecem mesada alguma. Escondeu o Bin Laden nos fundos de casa e o Kaddafi no buraco do jardim. Foi dele a ideia da greve dos professores, e do não aumento do salário deles também!Recomendou todos os ministros corruptos para a presidente Dilma. Impediu o avanço das obras de reforma do estádio Beira-Rio, depois de dizer que a obra estava uma porcaria, e atrasou todas as obras para a Copa do Mundo depois que derrubou um muro de tijolos com uma bolada que ele deu. O presidente Obama diminuiu a verba da NASA depois de ver o primeiro foguete feito com latas de alumínio inventado pelo meu pai. O presidente ficou tão admirado da invenção que achou desnecessário dar mais dinheiro para a instituição, se com material alternativo o resultado foi tão bom. Marcou uma consulta médica no SUS para o Lula e o Gianecchini (para 2015), pois não queria que eles gastassem dinheiro com tratamento médico. Doou uma passagem de ida para as Panicats e o Rafinha Bastos para uma ilha deserta, para que ficassem descansados para melhorar suas performances artísticas na TV.O Santos perdeu para o Barcelona porque o Neymar não pôde treinar no seu Playstation: ordem do técnico Muricy recomendadas pelo meu pai.

Meu pai fez muita besteira neste ano de 2011. E prometeu acabar com o mundo em 2012 se eu não me comportar.

Assinado: filho injustiçado

Reflexões de família sobre ditadura

Pai: – Filha, os militares eram bonzinhos, não matavam ninguém. Eles só matavam os políticos.

Filha:  Buuuáááááááá!Manhê!

Mãe: – O que foi filha?

Filha: – Meu pai quer que eu morra!

Mãe: – Que absurdo, você deve ter se enganado.Seu pai não diria uma coisa dessas.

Pai: – Eu só disse que a ditadura  matava apenas os políticos.

Filha: – Buáaaaaaaaaa!

Mãe: – Pai, não assuste a menina.

Filha: – Eu vou ser política quando crescer, esqueceram? Vão deixar o governo me matar?

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Anos depois…

Filha: – Pai, mãe, faço faculdade de História. Vocês sabem como é. Se o governo for uma ditadura, serei uma das primeiras a ter que ir embora do país.

Mãe: – É mesmo. Geralmente, as ditaduras implicam com quem é professor, jornalista, essas coisas.

Pai: – Mas eu não quero ficar longe da minha bebezinha.

Filha: – Se o governo quiser me pegar, vou ter que ir embora.

Mãe:-  Que nem o Jango e o Brizola.

Filha: –  Dizem que eles foram para o Uruguai vestidos de mulher. Já, sei pai! Vamos juntos pro Uruguai disfarçados. Você, já que não quer ficar longe de mim, vai vestido de mulher.

Pai:-  De mulher, precisa?

Filha:- Sim, temos que estar bem disfarçados.

Pai: – Então, combinado. Ma só se a ditadura voltar. Mas isso não vai acontecer, né?

Filha: – Será?

Observação: Baseado em fatos reais e familiares.